Resenha: A garota dinamarquesa – David Ebershoff

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Fábrica231 – 2016 – Romance norte americano – 363 páginas – Nota3♥♥♥.

Li o livro por empréstimo de uma amiga. Eu já tinha visto o filme há uns meses atrás, inclusive postei aqui sobre o assunto e tenho fascínio por comparar um ao outro, sempre tendendo a gostar mais do livro. Acho-o sempre mais rico pelos detalhes, embora a visão que o filme nos traga causa mais emoção usualmente. O livro é narrado em terceira pessoa (embora eu prefira em primeira, os últimos que li foram todos assim), contando a história de Greta – que no decorrer do livro, fica nítido pra mim que ela é a protagonista da história, contrariando o que eu supunha -, Einer e de Lili, como se fossem três personagens que de certa forma, realmente são. Conta a infância dos dois, a personalidade tão diferente de ambos, sendo bem detalhista e com uma linguagem de fácil entendimento. O escritor deixa claro que o livro é apenas inspirado em fatos reais. Os personagens existiram, mas a história é ficcional. O contexto se mantêm, mas os fatos foram inventados. A capa é com os dois atores que fazem o filme. Adoro os trabalhos de Eddie Redmayne, assisti e comprei o livro A Teoria de tudo muito devido ao desempenho dele e Alicia Vikander que eu não conhecia, mas me surpreendeu bastante.

Greta e Einer são casados e parceiros. São pintores e moram na Dinamarca. Greta sempre foi à frente do seu tempo, forte, corajosa e independente, uma mulher destemida que muito me agrada. Einar sempre foi talentoso, tímido e oprimido desde a infância. Quando Greta precisa que Einar se vista com um vestido, meia calça e sandálias para posar para um de seus quadros, já que de última hora a modelo contratada desmarcou, Einar descobre um novo mundo de liberdade, exploração de sua alma, descobertas e experiências. Através do livro é fácil identificar como Lili ganha vida, é uma pessoa inteira que estava aprisionada, é natural a transposição de Einar em Lili. Einar vai perdendo vida e Lili se apoderando de si mesma, porém em um corpo estranho. Que não é seu e não lhe cabe. Lili ganha espaço e embora Einar tente refreá-la, é impossível, porque Lili que é a verdade, a cabeça e a alma em pessoa. Maquiagem, roupas, gestos, cabelo, sexualidade causam euforia em Lili. Ela é mais nova que Einar (24 anos – 35 anos) pela alma e corpo. Explicando aqui talvez esteja bastante confuso, mas o livro retrata claramente o que estou tentando transmitir. Hans que foi amigo de infância de Einar é um personagem simbólico no livro. O primeiro amor dele. Se encontram muitas vezes quando Lili e Greta se mudam para a França no verão. Antes disso, Lili se envolve com Henrik, ainda na Dinamarca, mas quando Lili percebe que ele sabe sua verdade, se afasta dele. Ali na França, ela tinha a sensação de ser livre e de não ter medo. Sem posses e documento, ela é um ser liberto. Um fato importante são os sangramentos, que começam no nariz de Lili e depois partem para seus órgãos sexuais assiduamente e sem explicação inicial, que no decorrer da história é desvendado.

Lili Elba, em referência ao rio que passa pelas margens do hospital onde ela fica instalada durante meses onde foram feitas as cirurgias de afirmação de gênero (como são conhecidas), somente após muitas tentativas anteriores de encontrar um medico capaz e lúcido que entendesse e que estivesse disposto a atender suas necessidades. As cirurgias para “troca de sexo” realizadas pelo professor Bolk é a realização de um sonho para Lili, após muito ouvir que era louca, esquizofrênica, devendo ser internada e até passar por lobotomia. Carlisle, irmão de Greta, que também os ajudara embora sem conseguir compreender a questão é um personagem importante no final da história. O avanço lento da amizade para o envolvimento amoroso entre Greta e Hans é retratado também de forma sutil. O livro é extremamente delicado, fugindo do óbvio e das palavras inteiras, várias coisas ficando subentendidas. O fim do livro mostra o pioneirismo de uma trans que sabia que fingir não é viver. Nos leva a reflexões sobre o quanto estamos dispostos a lutar e nos sacrificar para sermos nós mesmos e sermos aceitos em nossa essência. O posfácio é uma explicação do autor por escrever essa obra. O nome verdadeiro de Greta é Gerda e ele explica o porquê. Há uma entrevista com ele dando o acabamento perfeito à nossa compreensão. Greta é uma personagem apaixonante por sua lealdade e comprometimento com o amor. Lili é apaixonante por sua lealdade e comprometimento consigo mesma. Decididamente, trata-se de uma história de amor.

Até breve,

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2 comentários sobre “Resenha: A garota dinamarquesa – David Ebershoff

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