Resenha: Memórias de uma guerra suja – Cláudio Guerra.

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Topbooks – 2012 – Ditadura Militar – 291 páginas – Nota 3♥.

Este livro foi escrito através das memórias de Cláudio Guerra, policial integrante da ditadura militar, após longas entrevistas concedidas a Marcelo Netto, jornalista, ex-estudante de Medicina, dono de uma consultoria de informações e comunicações e Rogério Medeiros, jornalista, fotógrafo, já foi dono de agência e autor de outros livros. Comprei este livro por indicação para conhecer melhor esse período tenebroso do Brasil, um assunto que vem me interessando bastante, visto o momento político do país.

Preciso alertar que o leitor precisa de certo “estômago” para ler este exemplar. E ainda que tenha boa memória, pois inúmeros nomes são citados, mais do que seja possível contar. Mostra a tortura  e seu papel na construção de uma sociedade governada através do medo e repressão. Se eu pudesse definir em uma palavra este livro seria crueldade. Nos faz analisar o quanto é perigoso o uso de tortura em presos, pois dependendo do método adotado, é possível enxergar claramente que se confessa até o inexistente ou uma mentira. É relatado de forma fria e crua. Causando-me um incômodo durante toda a leitura. A narrativa enoja, pelo menos a mim. Ele, Cláudio Guerra, ainda hoje acredita que era “o lado bom” da história. Que a religião, hoje ele é pastor, o absolveu de todos os crimes. As citações dão a impressão de que é certo, eles eram os mocinhos e a esquerda, os bandidos, “a esquerda armada”.

Sem arrependimentos ele narra todo o período. Li desconfiando da condução da narrativa. Existe manipulação das palavras, a força da manipulação da população, passar para frente como verdade apenas boatos inventados por agentes infiltrados. Forno de usina para queimar pessoas. Muita gente envolvida. Major Freddie Perdigão, agente importante nesse livro é o mesmo citado no último livro que li do Marcelo Rubens Paiva, que coordenou a morte de Rubens Paiva.

O comunismo sendo visto como o demônio. Cita o livro “Desaparecidos políticos” diversas vezes e fiz anotação mental para ler futuramente. Mostra como eles tinham poder soberano sobre todo o país, chegando a criar leis apenas para proteger a rede criminosa de ditadores e tirar da cadeia seus aliados, como a lei 5941/73 que vigora até hoje. Cita acidentes criminosos, reuniões para julgar e sentenciar a morte de adversários, opositores, queima de arquivo de aliados e castigo de parceiros que cometeram erros.

A forma como as pessoas que eram contra o regime militar são retratadas assusta o leitor. Os chamam de subversivos e terroristas e assim para combater o terrorismo foram usadas todas as ilegalidades possíveis. A pergunta que fica é importante até nos dias atuais: Quando você pratica o mesmo que alguém que você condena praticou ou que você acredita que praticou, o que você se torna?

Perdigão chegou a fazer uma monografia sobre como funcionava a ditadura, presente no final do livro e da forma como é escrita, nos parece até razoável. Parece normal e legítimo. Até Netto e Medeiros são bem tranquilos no decorrer do texto, talvez por isso, Guerra tenha concordado em dar as exaustivas entrevistas à eles, porque parecem não discordar do ocorrido. Porém, talvez seja apenas a função do jornalismo em exercício, que pede imparcialidade e é essa opção que prefiro acreditar, que seja pela ética. Premeditadamente escolheram não trazer julgamentos ao livro, pois a história não é deles e não lhe pertencem.

Cita atores, diretores, empresários conhecidos, donos de hotéis, cassinos, jogo do bicho, escolas de samba, radialistas, apresentadores, diretores de televisão, juízes, ficando fácil entender a manipulação midiática, além da forte censura na época, é claro. E a impunidade de tudo. A prostituição, grampos ilegais, roubos, drogas, jogos, tráfico de armas também faziam parte da história.

Ainda é possível perceber o perigo entre a religião e política conservadora. A frase usada nos dias de hoje “bandido bom é bandido morto” vem dessa época. Não vou entrar no mérito do quanto discordo dessa frase e o por quê.

Não passou despercebido o fato de a maioria de nomes que ele explícita já esteja morto ou não tenha mais relevância, mas os que ainda exercem papéis importantes no país e poder, ele “espertamente” ocultou. E devo salientar que são muitos. Estou até temerosa.

Em primeira pessoa quase sempre, eventualmente em terceira, ele narra o que seu grupo imenso acreditava, eles eram contra a redemocracia, porque acreditam que o povo não estava preparado para assumir o poder. Negligenciando o fato de também pertencerem ao grupo “o povo”. Mas eles podiam e isso só mostra arrogância. Queriam explodir todo canto do país, atentar contra vida de muitos para culpar a esquerda. Planejavam, cometiam crimes e manipulavam a cena do crime com a cobertura de muitas autoridades para que a mídia, também conivente, fizesse com que a esquerda enfraquecesse. Eles eram os verdadeiros terroristas. Situações abomináveis de empresários encomendarem atentados contra si mesmo para manipular o cenário político foram retratadas.  

Machismo, claro, também estava presente. Guerra subestimava todas as mulheres: “…assumira o comando depois da morte do marido. Não aceitei porque não discuto assuntos importantes com mulheres, sempre acaba vazando alguma coisa”.

O livro finaliza citando a ajuda dos ditadores à Collor em desfavor de Lula.

Para completar, acrescento que o livro é uma prova de que a luta política não era ideológica. Era por poder, dinheiro e ganância. Puro comércio, onde tudo era permitido. Sabotagem, propina (muitos enriqueceram recebendo pagamento de empresários que eram beneficiados pelo regime militar), ganho ilegal de dinheiro para cometer crimes de sequestro, tortura e homicídio nada tem a ver com a busca por um país melhor.

Reflitam!

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2 comentários sobre “Resenha: Memórias de uma guerra suja – Cláudio Guerra.

  1. Nossa, um relato da ditadura pela ótica de um militar???? Eita, claro que é sempre bom analisarmos os dois lados de qualquer história mas a verdade é que foi uma certa ousadia da editora querer dar a palavra para um cara assim ne rs..
    Gostei de saber um pouco sobre esse livro, obrigada 😉
    Bjinhuss
    (Keity)

    Curtido por 1 pessoa

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