Resenha: Precisamos falar sobre o Kevin – Lionel Shriver.

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Intrínseca – 2007 – Romance americano – 463 páginas – Nota 5♥♥♥♥♥.

Foda! Difícil encontrar palavras para definir essa leitura. A princípio, achei-o pouco lento ou entediante, confesso. Comprei porque tinha lido excelentes críticas de tudo quando foi lugar e quando soube que havia virado filme (disponível no Youtube para quem tiver interesse, assim como eu tenho de vê-lo logo), pensei “nossa, deve valer a pena”. O quis por um bom tempo, antes de poder comprar, pois o preço de cinqüenta reais não me permitia concretizar, não consigo gastar com um livro apenas, esse valor, acho um pouco fútil, sei lá. Esperei uma promoção, que demorou bastante a acontecer e consegui. Não tinha muitas dúvidas antes de passá-lo na frente de outros exemplares a espera de meus olhos. O livro é grande e volumoso. Em letras pequenas, margens mínimas, cada página vai precisar de sua total atenção. Levei dez dias para terminar a leitura, graças a sinusite, rinite e gripe em mistura que me pegou de jeito esses dias. Não fiz como o habitual, de escrever conforme ia lendo, ficando a ressalva de que, por isso, posso deixar passar algumas coisas que achei sensacionais. O livro é inspirado em uma história real. A partir dessa história a maravilhosa autora criou o enredo em forma de cartas escritas pela mãe ao marido. Apesar de Kevin ser o protagonista do acontecimento que faz jus ao livro, pra mim, a protagonista é ela, EVA, a mãe. Ela que narra, recorda, conta, reconta, aborda, analisa e aparece de fato. É a ela que realmente conhecemos. O texto é ambíguo, profundo, em certos momentos precisei parar em minhas reflexões, porque a ilusão e a escrita te mergulham. Um ponto que me manteve curiosa o tempo inteiro foi o que havia acontecido com seu marido, pai do Kevin, pois as cartas não têm respostas. Tinha meu palpite e acertei, mas ainda sim, me surpreendeu pois foi além da minha imaginação. A dúvida do porquê Kevin fez o que fez é crucial e assombra. Assim como o clássico pensamento de que os pais poderiam ter feito diferença se fossem diferentes ou não (acho que não). Com um pai totalmente complacente e inseguro que aceita tudo do filho e uma mãe austera, um pouco fria e conflituosa, a análise pode ser longa e árdua. Acredito ser essa uma das propostas do livro. Os sentimentos divergentes, conflituosos, aterrorizantes e incomuns trazem lucidez e um novo olhar ao leitor. O livro não te traz as respostas prontas, como mimados que somos, temos mania de querer. Ele te traz analogias e questionamentos. Você se surpreende com os pensamentos contidos no livro e dentro de você mesmo. É de uma tristeza chocante, um terror extasiante, difícil descrever. Simplesmente AMEI!  

Sinopse: Para falar de Kevin Khatchadourian, 16 anos – o autor de uma chacina que liquidou sete colegas, uma professora e um servente no ginásio de um bom colégio do subúrbio de Nova York –, Lionel Shriver não apresenta apenas mais uma história de crime, castigo e pesadelos americanos: arquiteta um romance epistolar em que Eva, a mãe do assassino, escreve cartas ao marido ausente. Nelas, ao procurar porquês, constrói uma reflexão sobre a maldade e discute um tabu: a ambivalência de certas mulheres diante da maternidade e sua influência e responsabilidade na criação de um pequeno monstro. Precisamos falar sobre o Kevin discute casamento e carreira; maternidade e família; sinceridade e alienação. Denuncia o que há de errado com culturas e sociedades contemporâneas que produzem assassinos mirins em série e pitboys. Um thriller psicanalítico no qual não se indaga quem matou, mas o que morreu. Enquanto tenta encontrar respostas para o tradicional onde foi que eu errei? A narradora desnuda, assombrada, uma outra interdição atávica: é possível odiarmos nossos filhos?

Até logo!

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