Resenha de Livro: A guerra não tem rosto de mulher – Svetlana Aleksiévitch.

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Companhia das Letras – 2016 – Narrativas Pessoais – 22/01/2018 – 392 páginas – Nota 5.

Sinopse: A história das guerras costuma ser contada sob o ponto de vista masculino – soldados e generais, algozes e libertadores. Trata-se, porém, de um equívoco e de uma injustiça. Se em muitos conflitos as mulheres ficaram na retaguarda, em outros estiveram na linha de frente. É esse capítulo de bravura feminina que Svetlana Aleksiévitch reconstrói neste livro absolutamente apaixonante e forte. Quase um milhão de mulheres lutaram no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, mas a sua história nunca foi contada. Svetlana Alexiévitch deixa que as vozes dessas mulheres ressoem de forma angustiante e arrebatadora, em memórias que evocam frio, fome, violência sexual e a sombra onipresente da morte.

Boa tarde, leitores.

Olha eu aqui de novo! Resolvi escrever resenha deste livro porque só postar a foto e algumas palavras nas redes sociais não seria justo com essa leitura.

Li este livro por alguns motivos. O primeiro é porque foi escrito pela Svetlana e ela é incrível. Depois de ler Vozes de Tchernóbil virei fã. Não é à toa que ela ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 2015. Segundo motivo foi por tratar da famosa Segunda Guerra Mundial, um assunto que me interessa sempre. Porém minhas leituras deste tema sempre foram através de visões infantis e inocentes das crianças, que acho belo por trazer leveza ao tema ou a partir do ponto de vista masculino. Porém este livro é diferente de tudo porque a autora teve a sacada de contar a história através de mulheres que participaram dessa guerra e o feminismo retratado na argumentação da autora também é especial pra mim.

As personagens que são múltiplas mulheres soviéticas são importantes, a história é emocionante e a narrativa da autora como sempre é impecável. Por isso o livro já seria nota cinco, mas Svetlana vai além nos seus livros. Porque ela consegue prender o leitor pela escrita e aproximar o leitor da história. Você se vê sofrendo e torcendo por essas mulheres. Ela aprofunda a história através dos relatos. Portanto apesar de ser um assunto impactante e muito trabalhado na literatura, ela consegue extrair mais daquilo que escreve. Assim como livros que trazem cachorros como protagonistas e o leitor já sabe que vai se emocionar, as narrativas dela também.

O livro envolve por trazer dados importantes da história, como o fato de um milhão de mulheres lutarem no exército soviético e traz um ponto relevante: por que nunca nos foi mostrado essas mulheres? Acho que isso diz bastante sobre o machismo nosso de cada dia.

As histórias sensibilizam como se tivéssemos ouvindo alguém querido nos contar e você se compadece dessas pessoas assim como fez em seu primeiro livro. O livro também é enxergado como didático, visto que se trata de um assunto importante na História Mundial, algo que me desperta muito interesse. Conta sucintamente a participação de mulheres na guerra desde antes de Cristo, trazendo-nos aprendizado.

O livro conta com citações importantes como de Dostoiéviski “o quanto há de humano no ser humano”. É um livro para ser sugado, devorado e aproveitado ao máximo.

Página 18: “Entre a realidade e nós existe os nossos sentimentos”. O livro não trata sobre a guerra e sim começa fazendo uma censura a qualquer forma de violência e guerra, o que eu concordo totalmente, nos faz refletir para que servem as guerras, qual o impacto dela na vida das pessoas, sobre o ser humano na guerra e suas peculiaridades.

Página 21: “Mulher é mais difícil matar”. Geramos vida.

O livro é bem forte e recheado de personagens contando sua interpretação e experiência na guerra. Uma história que me marcou bastante é contada na página 32. Trata-se de uma mãe que tem que afogar o próprio filho na guerra para que os alemães não ouçam a tropa dela que está escondida. E ao mesmo tempo em que temos consciência da monstruosidade que seja isso, paramos para analisar o contexto: todos seriam mortos. E isso é importante.

Parei para pensar qual seria o limite para o patriotismo. Um limite humano e sensato. Pois a guerra é algo que transforma o ser. Há um instinto de defender sua pátria e sua terra, de obediência ao governo, de sobrevivência, de lutar e de matar pelo país que não concordo, porém acho que consegui entender. Quem não lutava era visto como traidor. Quem era capturado pelos alemães também. A vida não tinha valor. Dizem que não existe nada mais forte do que amor de mãe e o livro nos mostra algo novo.

A autora também mostra trechos que o censor não queria que fossem divulgados e nos é exposto que a guerra sempre foi contada pelo lado da vitória e do glamour, se é que é possível. Porém os horrores, as doenças, a fome e toda a desgraça são omitidas do mundo. Talvez porque qualquer pessoa sensata que conheça realmente o que seja uma guerra, nunca queira participar de uma.

Pág 9: “Milhões de assassinados por nada. Abriram um caminho na escuridão” – Óssip Mandelstam. A autora deixa bem claro o que pensa da guerra logo de início no livro. Mas tem a sabedoria de não julgar ou criticar as histórias que ouve. Apenas se emocionar, assim como aconteceu comigo.

Pág 12: “A guerra feminina tem suas próprias cores, cheiros, sua iluminação e seu espaço sentimental”. Mas não se enganem achando que essas mulheres eram frágeis. Lutaram e desempenharam todas as funções existentes assim como os homens.

A verdade é que o livro é bem triste. Porque quando refletimos sobre vinte milhões de soviéticos que pagaram pela vitória com suas próprias vidas durante os quatro anos de apenas essa guerra é aterrorizante. Importante dizer que se estima que até hoje ocorreu cerca de três mil guerras. (pág 89). É difícil expressar que até hoje o mundo não aprendeu a amar.

O ódio tomou o coração de todos e o discurso dos ditadores Stálin e Hitler foi de uma perversidade doentia. O livro conta histórias dessas mulheres como mães que tiveram que deixar seus filhos, como esposas que perderam seus maridos na guerra, sobre amores proibidos, sobre salvamentos e resgates de homens estranhos e como essas mulheres sofreram ainda mais após a “vitória” por não terem para onde voltar, por estarem doentes e incapacitadas, por estarem com traumas e o psicológico destruído e ainda pior, por não terem boa fama entre seu próprio povo que achavam que essas mulheres faziam a vez de amantes dos homens combatentes.

Recomendo muito mesmo!

Beijos e até a próxima.

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8 comentários sobre “Resenha de Livro: A guerra não tem rosto de mulher – Svetlana Aleksiévitch.

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